Domingo, Março 04, 2012

Chegou a hora

Chegou a hora de pôr fim e dizer adeus.
Sem olhar para trás, sem ter saudades e sem sequer pensar.
Sem sorrir, nem chorar.
Sem tremer ou sequer vacilar.
Chegou a hora de fazer a mala, desatar amarras e ir.
Ir, sem perguntar, e às vezes sem acreditar.
Mas ir.
Porque sonhei e quis, porque lutei e não fui feliz.
Porque acreditei sem nunca saber,
Mas também me dediquei sem nunca me temer.
Chegou, hoje, a hora de dizer adeus, e de nem sequer ponderar um até já.
De quebrar com quem não me mereceu, e de nem chorar por quem não me quis lá.
Vou, com o futuro nos olhos e a força nas mãos,
Vou, avançar barreiras e não temer os chãos,
Vou, como se ir fosse o único caminho,
E vencer o meu único e inevitável destino.

Até sempre,
AUDIÊNCIA.
(2007-2012)

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Enterro a tua memória

Enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Lembro-me de ti em nuvens de fumo ténue e às vezes ainda sorrio.
O bom que vivemos é, por vezes, o único sinal que te envio.
Mas, quando a recordação bate à porta e me diz que partiste
Reservo para mim a raiva eterna e assumo que fugiste.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.
Porque não gosto do passado nem daquilo que ele te fez
E não gosto do dia de hoje nem de tudo o que se desfez.
Se a tua memória vive e é conduta numa conversa
Então sinto sal na boca e fujo pela porta que deixaste aberta.
Peço-te que vivas no mundo que escolheram para ti
E que daí de cima guies o percurso que escolhi
Mas enquanto te nego e procuro sem te encontrar
Espero que fiques sempre no sítio onde resolvi te enterrar.
Então enterro a tua memória sob a areia molhada e a relva verde.

Desculpa, Avó. (18/01/2004)

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Grito

Quero.
Tanto que me doem as forças de tanto o querer.
E luto.
Luto tanto que de mim foge o futuro, com medo de me ter.
Ambiciono.
E vou à procura como quem perde a alma na paisagem .
Sonho.
E quase me acredito de que a sorte não passa de uma miragem.
Então procuro.
E nada é tão forte que me faça perder da vontade de ganhar.
E vou longe, fundo, como só eu sei
Na ânsia desenfreada de o conseguir desvendar.
Porque sou forte, acredito
E peço, e rezo e suplico.
E porque sou nada
Espero, resigno-me e no fim...
Grito.

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Morrer na praia

O sal na boca corta-me os lábios finos e secos. O aroma a maresia é putrefacto e enoja-me. A areia, ao vento, toma rumos de nortada e corta-me a face como navalhas afiadas, como picos de rosas secas. No corpo não tenho roupas, nas mãos não tenho anéis. Numa poça de água vejo-me e não sou nada. Pequena. Desprovida. Despida. As ondas batem lá ao fundo, cinzentas e revoltas. Gaivotas emitem ruídos como gritos, passeiam junto à areia em busca de alimento. E eu arrasto-me. Sem forças. Sem pernas nem mãos. Sem ser ninguém, rebolo na areia molhada. Os grãos são muitos e penetram as entranhas, envolvem os cabelos molhados e suados. Cansados. E são tantos e tão pegajosos que não descolam. Não secam nem molham. Tapam-me as pálpebras, as narinas e a boca e impedem-me de respirar. Ao longe, as aves que até agora passeavam junto ao espraiar das ondasm fazem-se ouvir cada vez menos, cada vez menos, cada vez menos. As ondas morrem lá ao fundo, onde não há céu, não há mar nem praia. E o vento é cada vez menos forte. Os olhos já não abrem e o coração quase nem bate. Aos poucos deixo-me ir sem resistir. De nada vale.

Terça-feira, Outubro 11, 2011

Arrumar a vida

Arrumar a vida como quem organiza gavetas, de papéis velhos e rasgados a recordações antigas e esquecidas.
Arrumá-la em prateleiras vazias, repletas de sims e nãos, de bons e maus, como quem limpa espelhos partidos.
Arrumar os dias em pedaços, desfeitos em desencontros, roídos por um tempo que não passa.
Arrumar o passado por debaixo do tapete rasgado, que ninguém pisa e ninguém calca, que ninguém sacode e ninguém lava, que existe por existir e não para ser lembrado.
Arrumar o que fui e o que não sou em páginas em branco de um livro que nunca escrevi e, no fim, saber que nada do que sou é meu, nada do que é meu me pertence e nada, a não ser um nada profundo, é fruto do meu querer.
Arrumar a vida é como lavar lençóis brancos ao vento. Deixá-los secar em contratempo, sem esperas e sem procuras. É aguentar com a corrosão alva e mesmo assim saber viver com desencontros e desilusões.

Quinta-feira, Agosto 04, 2011

Ilusão

doce como um gelado no verão, chegas e apoderas-te de uma existência que não é tua nem minha. que me deram. como quem dá rosas em dias de chuva.
depois ficas. e amadureces. como quem rega árvores de fruto e de frutas que não crescem, não são vermelhas e não têm açúcar.
vais estando, ocupando os dias e as noites. e quando já nem te quero, já és mais do que real. és minha. és vida. 
impertinente e inconveniente. estás. vestes de manto branco cintilante as horas do dia que não quero viver e apagas com borracha branca e sem mancha os amargos e os intragáveis que não quero comer.
adoro-te e venero-te no fim. como se Deusa fosses, como se real te achasse. e quando te faço minha, te deito na minha cama e te dou a minha vida, és cruel e maliciosa. sais pela porta que fechei, com a chave que não te dei e pelo caminho que não te tracei.
vais embora. comigo só o rasto e a sensação. tomara que não fosses uma só e dura ilusão.

Quarta-feira, Julho 13, 2011

Nada

Nada cá dentro mexe, salta ou agonia.
Nada cá dentro grita, sente ou arrepia.
Nada cá dentro suspira, aflige ou faz rir.
Nada cá dentro encanta, alegra ou faz sorrir.
Nada que vem de dentro é suficiente forte para apagar memórias
Nada que vem de fora pode dar força para fazer escrever
Nada cá dentro é motivo para as minhas estórias,
Nada cá dentro é fogo, lume, ou faz sofrer.
De dentro vem a paz que sonhei,
De dentro vem o fim da dor que esperei,
De fora apenas o vento que bate na face,
Que sussurra ao de leve o desenlace,
E garante que o crer pode ser rei.